
das coisas
que eu fiz a metro
todos saberao
quantos quilometros
sao
aquelas
em centimetros
sentimentos minimos
impetos infimos
nao?






Hoje decidi sair. Devia me divertir, fugir do trabalho, da rotina, do mesmo homem e da mesma foda no fim do dia. Acho que não sei o que quero, mas certamente não é isso. Enquanto ela pensa, penteia o cabelo, toma o café e em seguida escova os dentes. Quero fugir, mas antes de sair verifica se o gás está fechado, se há comida suficiente pra Adorno e se sua caixinha ainda é transitável. O sol esquenta a calçada quando ela põe o pé pra fora. Não sente pois o salto é alto. Nunca mais voltar, como se estivesse pegando fogo, queimar até o fim. Adorno se viraria se o idiota não conseguisse tomar conta nem de um gato.
Existe algo que não se define em uma palavra, e uma vontade de me sentir só. Foi muito tempo dedicado aos outros, ou melhor, ao outro, não importa. Agora quero correr, ver o mar ou o mato, mas só, sem ninguém pra me dizer o que sente por mim. Estou longe, e sabe que está longe das respostas. Apesar de não estar mais de uma quadra longe de casa me pergunto se vale a pena. Três quadras depois, se pergunta, se é mais fácil pegar um ônibus na rodoviária, ou um táxi até o aeroporto. Era a única que procurou por ele, e agora se arrepende.
Tanto tempo perdido. Enquanto paga o bilhete se arrepende do que passou. A mulher pergunta se vai pagar a volta, digo que não tem volta.


Piquenique à beira de estrada
Morte sépia cinza negra ruínas fracasso atraso. Escreve palavras sem nenhuma ligação. É tudo mentira. Vinte anos nenhum problema resolvido sequer posto. Deus é uma mentira como os ovinis, outra vida além dessa, triângulo das bermudas, conspiração dos astros, um gracioso engodo. Stella adora ler os russos e os alemães, melhor que Sarney ou Lacerda. Obsessão lixo entulho ferro velho solar e lunar Ashley Alice Diana Samanta Sara Suzette Mariana e Babi, mais nomes e nenhuma relação. Vida. Não existe sequer a Zona de Tarkovsky, nada que virá nos redimir. Na tevê, vende-se mantra pra ficar mais rico o ano que vem. Cheio de minha mesmice mas pensando em que escreveria Stella neste caderno.
“Ia caindo a tarde, parei diante de um cartaz que anuciava a apresentação que daria Berma no primeiro dia do ano. Corria um vento suave e úmido. Aquele tempo me era bastante conhecido; tive a sensação e o pressentimento de que aquele dia do ano novo não era diferente dos demais, não era o primeiro dia de um mundo novo em que eu poderia, tentado a minha sorte ainda não explorada refazer minha amizaade com Gilberte, como no tempo da Criação, como se ainda não existisse o passado”... Stella sentia-se mais nova lendo esse tipo de literatura, não que ela fosse velha. Sentia que sua geração havia perdido alguns interessses, então sentia-se meio deslocada, por exemplo, tinha simpatia por Jango e Allende e não sabia como mas começou a estudar por conta própria, começou pela greve dos metalúrgicos, vidreiros e gráficos
Tinha perversões como o narrador que gostava de ajudar e guiar deficietes visuais, não só por altruísmo pois como Stella não acreditava em tal coisa, mas pelo prazer de se sentir útil, guiar alguém ao seu deestino, além do mais, gostava de ser tocado, como Stella, pois achava que as mãos deles eram mais macias além disso eram mais sensíveis, disso não tinham dúvida. Preferiam as mulheres mas o contato com os homens era mais frequente, parecia haver mais deficientes do sexo masculino na cidade.
O único medo de Stella era que as pequenas convulsões voltassem. Perto do aniversário de morte de sua mãe sua imaginação era mais útil, enxergava as coisas como elas realmente eram, sua mente era muito mais esperta e quase não dormia nesses dias, bebia para domesticar a imaginação. Não tinha medo de morrer nesses dias mas tinha medo das convulsões. Pensou em ligar pra Babi, conversar, tomar um café.


O diabo está nos detalhes. Fui sempre muito ruim para contar histórias. Nunca conseguia prender a atenção dos ouvintes ou me esquecia dos detalhes. Talvez seja por causa da minha eterna falta de organização ou minha indisposição para se programar. Ela fica saliente na escrita.
Essa história não me redime. Odeio colocar os pingos nos is, tenho dificuldades em concatenar as idéias. Devo começar pelos lapsos, pois eles também contam uma história. Assim, começo pelo omitido, na manhã da descoberta Dona Mariana não estava lá. D. Mariana é geralmente a mulher que toma conta dos recicláveis, ela os organiza, já que os politicamente corretos como eu, são muito preguiçosos pra separar os diferentes tipos de materiais.
Todas as manhãs, especialmente as de Sábado, temos algum tempo pra conversar, digo, eu e D. Mariana. Nesse dia ela não estava e os tambores da coleta já encontravam-se abarroados, fora o monte de sacolas espalhadas pelo chão. Tinha uma casca de laranja embolorada na minha sacola, misturada com recicláveis e eu não tive coragem de pegá-la e jogá-la em outro lugar, ficou lá junto com os recicláveis.
Caminhei até uma lanchonete que fica em frente a um ponto de onibus, tomei um café e li “In Society”. Ginsberg reflete sobre a dependência da voz do autor, ou seja, a não-autonomia do autor, quero dizer, o autor como produtor, que necessita do outro e faz parte de uma classe. Estava meio sonolento, meio timido ou atordoado com o achado artesanal, as folhas do caderno pareciam costuradas com muita atenção. Pedi um café e em vez de receber um café puro ele veio com leite. Reclamei mas aceitei e tomei num copo americano devagar enquanto lia o poema de Ginsberg. Li e o reli, paguei, e saí. Fui a uma loja de 1,99 e comprei uma caneta pra começar a escrever no caderno. Paguei 1,70 pela caneta preta que custava 1,75. escrevi um bocado numa galeria. Dava uma postagem longa o suficiente, então me dirigi para uma lan-house. Não tenho internet em casa, nem computador pra arquivar o texto sobre o achado. No caminho tomei outro café, agora, um expresso, numa outra galeria. Tinha muito tempo pois era cedo e acreditava que a lan-house não estaria aberta. Tomei o café e li “The brick layer's lunch hour”, Ginsberg vê poesia no pedreiro sem camisa, eu admiro o graffit em frente ao café, do outro lado da rua, na mesma avenida da outra galeria em que há pouco eu sentara. Há muita poesia nos graffits, ou essa maneira de se expressar supera a poesia? E eu sem referente a altura tento domesticá-los, reduzí-los ao já conhecido que está morto nas estantes das livrarias, no comécio, nos museus.


Carlos queria aprender a amar Tânia, amiga de Diana – que também era amiga de Carlos - e namorava Túlio. Tânia ficou com Diego, esse caso era antigo, e contou pra Carlos que tinha mania de inventar que Diana gostava dele, esse caso também era antigo. Tânia continuou triste, assim como Túlio, Diana e Carlos que nunca se conheceram.


Troubles, no troubles, on the line,
& I can't standto see you,
I can't stand to see you
when you'recrying at home.
Scotch & penicillin, please try
Carlton,
a cold black maple hanger
& husbandson the run
I just got back from a dream
attack
that took me by surprise & in there
I met a lady,
her name was Shady Sides
& shesaid, "It's been evening all day long, evening
all day long & how can something so old be so
wrong".
Sin and gravity drag me down to sleep
to dream of trains across the sea,
trains acrossthe sea.
Half hours on earth, what arethey worth, I don't know.
In 27 years
I've drunk fifty thousand beers & they just
wash against me like the sea into a pier.

“Não é preciso dizer que uma civilização que deixa insatisfeito um número tão grande de seus participantes e os impulsiona à revolta, não tem nem merece a perspectiva de uma existência duradoura”.
A bienal de São Paulo tinha um espaço vazio, até que uns vândalos, invadiram o local e colocaram stickers, depois outros vieram e picharam paredes e parapeitois. Poderiam ser considerados vândalos ou barbáros esses grupos que expressaram suas idéias num espaço aberto à exposição e celebração das artes plásticas?
Difícil discutir estética, arte ou política hoje, sem pensar nas relações de propriedade. Assim a manifestação de um grupo de jovens diante do vazio da bienal seria autenticamente o que a tradição e o academicismo já chamou de arte? Esse mesmo tipo de manifestação ocorre todos os dias de maneira subreptícia por toda cidade de São Paulo.
A arte é só aquilo que está domesticado pelos museus?
Interessante é notar que essas pichações polulam os pontos mais movimentados, estão em avenidas e ruas das ilhas financeiras, geralmente aparecem em imóveis abandonados, ou seja, prédios cercados de especulação financeira por todos os lados.
Segundo uma velha perspectiva a propriedade privada é roubo, o que seria então uma propriedade privada e improdutiva?
Porém, a perspectiva hegemônica a trata como algo sagrado,ou melhor, principio do estado de direito. Logo, sua invasão constitui crime. Assim os garotos teriam cometido um grave crime, considerado como invasão e destruição de propriedade. Embora o prédio em questão promova a arte. Embora esse mesmo lugar que celebra a arte reserve um espaço vazio com uma proposta de nos fazer refletir sobre a arte.
Acho que a arte se tornou protocolar, ou light como disse Frederick Jameson, em todos os âmbitos, inclusive no campo das artes plásticas. Sobre a citação acima, não foi Marx, tampouco Engels, não foi Bakunin, nem Lenin ou Trotsky, muito menos Che , mas Freud
O cinismo da nossa sociedade pós moderana, pós capital, pós humana, não diz que o problema é de tolerância, por que não toleram a arte desses grupos, seria porque certos pricípios seraim invioláveis mesmo perante a arte?
"Do you remember my sister?
How many mistakes did she make with those never
blinking eyes?
I couldn't work it out.
I swear she could read your mind, your
life, the depths of your soul at one glance.
Maybe she was stripping herself
away, saying
Here I am, this is me
I am yours and everything about me, everything you see...
If only you look hard enough
I never could.
Our life was a pillow-fight.We'd stand there on the quilt, our hands clenched
ready.
Her with her milky teeth, so late for her age, and a Stanley knife in
her hand. She sliced the tyres on my bike and I couldn't forgive her.
She went blind at the age of five. We'd stand at the bedroom window and she'd
get me to tell her what I saw.
I'd describe the houses opposite, the little
patch of grass next to the path, the gate with its rotten hinges forever wedged
open that Dad was always going to fix. She'd stand there quiet for a moment.
Ithought she was trying to develop the images in her own head. Then she'd say:
I can see little twinkly stars,
like Christmas tree lights in faraway windows.
Rings of brightly coloured rocks
floating around orange and mustard planets.
I can see huge tiger striped fishes
chasing tiny blue and yellow dashes,
all tails and fins and bubbles.
I'd look at the grey house opposite, and close the curtains.
She burned down the house when she was ten.
I was away camping with the scouts.
The fireman said she'd been smoking in bed - the old story, I thought.
The cat
and our mum died in the flames, so Dad took us to stay with our Aunt in the
country. He went back to London to find us a new house. We never saw him again.
On her thirteenth birthday she fell down the well in our Aunt's garden and
broke her head. She'd been drinking heavily.
On her recovery her sight
returned, a fluke of nature everyone said. That's when she said she'd never
blink again. I would tell her when she started at me, with her eyes wide and
watery, that they reminded me of the well she fell into. She liked this, it
made her laugh.
She moved in with a gym teacher when she was fifteen, all muscles he was. He
lost his job when it all came out, and couldn't get another one.
Not in that
kind of small town.
Everybody knew everyone else's business.
My sister would
hold her head high, though. She said she was in love. They were together for
five years until one day he lost his temper. He hit over the back of the neck
with his bullworker. She lost the use of the right side of her body. He got
three years and was out in fifteen months. We saw him a while later, he was
coaching a non-league football team in a Cornwall seaside town. I don't think
he recognized her.
My sister had put on a lot of weight from being in a chair
all the time. She'd get me to stick pins and stub out cigarettes in her right
hand. She'd laugh like mad because it didn't hurt. Her left hand was pretty
good though. We'd have arm wrestling matches, I'd have to use both arms and
she'd still beat me.
We buried her when she was 32. Me and my Aunt, the vicar, and the man who dug
the hole. She said she didn't want to be cremated and wanted a cheap coffin so
the worms could get to her quickly. She said she liked the idea of it, though
I
thought it was because of what happened to the cat, and our mum".
Tindersticks My Sister lyrics




"Para maior clareza, coloco em primeiro plano a forma fotográfica dessa técnica. O que for válido para ela pode ser transposto para a forma literária. Ambas devem seu ímpeto excepcional à técnica da publicação: o rádio e a imprensa ilustrada. Pense-se no dadaísmo. A força revolucionária do dadaísmo estava em sua capacidade de submeter a arte à prova da autenticidade. Os autores compunham naturezas mortas com auxilio de bilhetes, carretéis e pontas de cigarro aos quais se associavam elementos pictórios. O conjunto era posto numa moldura. O objeto era então mostrado ao público: vejam, a moldura faz explodir o tempo; o menor fragmento da vida diária diz mais que a pintura. Do mesmo modo a impressão digital ensangüentada de um assassino, na pagina de um livro diz mais que o texto. A fotomontagem preservou muitos desses conteúdos revolucionários. Basta pensar nos trabalhos de John Heartfield, cuja técnicatransformou as capasa dos livros em instrumentos políticos. Mas acompanhemos um pouco mais longe a trajetória da fotografia. Que vemos? Ela se torna cada vez mais matizada, cada vez mais moderna, e o resultado é que ela não pode maisfotografar cortiços ou montes de lixo sem transfigurá-los. Ela não pode dizer, de uma barragem ou de uma fábrica de cabos, outra coisa senão: o mundo é belo.este é o título do conhecido livro de imagens de Renger-Patsch, que representa a fotografia da 'Nova Objetividade' em seu apogeu. Em outras palavras ela conseguiu transformar a própria miséria em objeto de fruição, ao captá-la segundo os modismos amis aperfeiçoados. Por que se uma das funções econômicas da fotografia é alimentar as massas com certos conteúdos que antes ela estava proibida de consumir – a primavera, personalidades eminentes, países estrangeiros – através de uma elaboração baseada na moda, uma das suas funções políticas é a de renovar, de dentro, o mundo como ele é – em outras palavras, segundo os critérios da moda".
BENJAMIN






