quinta-feira, julho 31, 2008

Ubiquidade ( Para Roberto Bolaño)

"...existem coisas que não podem ser contadas..."

Os cigarros que fumei a noite passada me fazem pensar. Lembro-me de que Luciana sempre esteve lá. Não, não é coincidência não. Estva desde sempre no sorriso de Adriana, na boca de Alice, nos carinhos de Fabiana, nas pernas de Valéria, no olhar de Marina, nas conversas com Silvia.

Os cigarros que fumei a noite passada lembram-me que coincidência não pode ser. E que tudo pode ser imaginação. Luciana pode ser um fruto de meu delírio, como um livro de Bolaño que parece ser autobiográfico, no entanto, pode ser lido como ficção ou delírio.

Os cigarros que fumei ontem a noite me fazem pensar que Luciana não fuma. Aliás, quase ninguém de sua família fuma. Me fazem lembrar da cor branca de sua pele impoluta, tão branca como a cor alva de suas calcinhas. Na fumaça ainda via aquele jeito de andar pelada, meio infantil.

Os cigarros que fumei me fazem acreditar que na noite passada encontrei Luciana. Ela estava tão bem. Era ela mesma, bela com um ar despreocupado e alegre, talvez por causa de seu pai haver saído do hospital.

Hoje nas calçadas encontro rostos familiares em pessoas estranhas. A manhã de inverno me faz melancólico. Você passa por mim como uma musa de Corso ou de Baudelaire, como uma pequena frase de seu autor favorito você me atravessa. Luciana tão breve e leve como quinze, vinte, trinta e dois anos, um suspiro breve na vastidão do tempo. Acendo um cigarro e me lembro de que os Mapuches não gostam de ser fotografados.

quarta-feira, julho 23, 2008

Saudades


Miss ya a bunch

terça-feira, julho 22, 2008

MIRABISMO: Amostra na Cinemateca

MIRABISMO: Amostra na Cinemateca

http://www.cinemateca.com.br/

Amostra na Cinemateca

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A COMÉDIA DO PODER
22 de julho a 07 de agosto de 2008
Ditadores em crise, políticos trapaceiros, patrões temperamentais, empregados megalomaníacos, intelectuais oportunistas, impérios desgovernados e os bastidores da negociata e da propina estão em cartaz na mostra A COMÉDIA DO PODER, destaque da programação da Cinemateca Brasileira entre os dias 22 de julho e 07 de agosto.
A tradução dada pelos distribuidores a L’Ivresse du pouvoir (2006), filme do veterano cineasta francês Claude Chabrol, serve de mote para o ciclo. A COMÉDIA DO PODER exibe, em cópias 35mm, dois clássicos da comédia política como O Grande Ditador (1940) – primeiro filme sonoro de Chaplin – e Diabo a quatro (1933), de Leo McCarey – clássico da filmografia dos irmãos Marx. Na programação, constam ainda dois títulos fundamentais para a formação do cinema moderno como A regra do jogo (1939), de Jean Renoir, influência decisiva para a geração da nouvelle vague, e Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, filme que, segundo François Truffaut, “resume todos e antecipa todos os outros”. Além de Kane, a mostra apresenta Macbeth (1948), também na versão dirigida por Welles, uma sombria adaptação para a peça de Shakespeare, e O poder vai dançar (1999), de Tim Robbins, filme que retrata o início da carreira do cineasta, então um jovem diretor de teatro às voltas com a censura.
O cinema brasileiro marca presença com filmes representativos de sua história: Caça à raposa (1913), de Antonio Campos, raro documentário do período silencioso; Nem Sansão nem Dalila (1954), de Carlos Manga, uma das mais célebres chanchadas da Atlântida na qual Oscarito imita, numa das seqüências, os trejeitos do ditador Getúlio Vargas; À meia noite levarei sua alma (1964), de José Mojica Marins, gênese da trilogia de Zé do Caixão, um dos personagens mais marcantes da história do cinema brasileiro; O bravo guerreiro (1969), de Gustavo Dahl, exemplar típico do Cinema Novo do pós-64; Os Inconfidentes (1972), de Joaquim Pedro de Andrade, produção originalmente realizada para a TV italiana e Sermões: a história de Antonio Vieira (1989), de Júlio Bressane, que recria de forma nada tradicional a trajetória do pregador português assassinado na Capitania Hereditária de Salvador em 1697.
Do cinema brasileiro, a mostra A COMÉDIA DO PODER reúne ainda obras malditas como Cuidado madame (1970), de Júlio Bressane, uma produção da Belair Filmes, companhia fundada por Bressane e Rogério Sganzerla em 1970, responsável por alguns dos mais importantes filmes do cinema experimental brasileiro (uma rara cópia 16mm foi cedida pela Cinemateca do MAM no Rio de Janeiro) e Patty, a mulher proibida (1979), de Luiz Gonzaga dos Santos, uma produção da Boca do Lixo, com roteiro do escritor Marcos Rey.
Completando a programação, vale destacar, além da coletânea de curtas formada por Maranhão 66 (1966), de Glauber Rocha, Bla bla bla (1968), de Andrea Tonacci e Yellow Caesar (1941), de Alberto Cavalcanti, a exibição do musical Sr. Puntilla e seu criado Matti (1955), também de Cavalcanti, uma adaptação da peça homônima de Bertolt Brecht, com roteiro co-escrito pelo dramaturgo, e de Hitler, um filme da Alemanha (1977), de Hans-Jürgen Syberberg, cineasta inclassificável, autor de obras marginais dentro da geração do Novo Cinema Alemão.

Visite o site para programação

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sexta-feira, julho 18, 2008

(Agradecer) Para Ana Oshiro



Como agradecer a única pessoa que lê as coisas que escrevo? No entanto, se você estivesse falando da dica no you tube com entrevistas do Cortazar, alguns dias antes de você me mandar aquela mensagem, fuçando no you tube eu as assisti de trás pra frente. Por essa e por outras postei coincidência. Mas se Cortázar estivesse vivo ele teria outra explicação pra isso tudo.







Ah, o livro que acabei de ler ilustra meus agradecimentos, quando vier pra Sampa ou quando o Fabio vier eu empresto pra vocês.

Tudo que é sólido desmancha no ar (Marshal Berman)

Foucault reserva seu mais selvagem desrespeito às pessoas que imaginem ser possível a liberdade para a moderna humanidade. Nós pensamos que sentimos um espontâneo impulso de desejo sexual. Estamos apenas sendo movidos pelas "modernas tecnologias do poder que tomam a vida como seu objeto", dirigidos " pelo poder que dispõe da sexualidade em seu controle sobre corpos e sua materialidade, suas forças, suas energias, suas sensações e prazeres".
Este excerto está na introdução do livro "Tudo que é sólido se desmancha no ar" mas pode ser apropriação de má fé (bricolagem?) por isso leiam o livro e assistam o filme e me contem.

Dá mais vontade de ler Foucault (A história da sexualidade)
Aliás citada ontem na exposição do professor Natali intitulada "Grafoterapia"
http://www.abordo.com.br/sat/res01_lara.htm

quinta-feira, julho 17, 2008

Citizen Kane II (I mean a Brazilian version)

People might think he is the devil but I think he was... at least the devil's father, though, Ali Kamel is the devil itself.

sexta-feira, julho 11, 2008

Everything is fucked up


If there's nothing to talk about it or others might say nothing new under the sun (everything has been said) and even criticizing sth is in jeopardy (or has been according to Adorno or Horkheimer) what a hell is left?






KANE I (the first)

Coincidência


s. f., simultaneidade de dois acontecimentos;
concordância;
justaposição;
identificação de duas ou mais coisas;
acaso.











http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://i10.photobucket.com/albums/a150/tuesdayweld/blowup1.jpg&imgrefurl=http://multiplot.wordpress.com/2008/06/13/blow-up-depois-daquele-beijo-michelangelo-antonioni-1966/&h=442&w=369&sz=23&hl=pt-BR&start=1&tbnid=-xtUnF6M7wsfAM:&tbnh=127&tbnw=106&prev=/images%3Fq%3Dblow%2Bup%26gbv%3D2%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DG

quarta-feira, julho 09, 2008

The plan (BUilt to spill)

The plan keeps coming up again
The plan means nothing stays the same
But the plan won't accomplish anything
If it's not implemented
Like it's always been
And it makes me think of everyone
And the cause of this is evident
But the remedy cannot be found
Cause it's so well hidden
This history lesson doesn't make any sense
In any less than ten thousand year increments
Of common sense

terça-feira, julho 08, 2008

Taking People (BY Cat Power)


Who, who never showed you,
About the easy way,
Whose robes did they trade you,
For such an easy life

Who, who never showed you,
About the easy way,
Who, who never told you,
About the perfect life,
Guess it's some kind of,
Some guarantee,
You'll never see.

If I was a photographer,
Picture taking,
Beautiful people,
I guess I'd make a mistake,
'Cause I'd probably take a,
Picture of you.

Who, who never showed you,
About the easy way.

And whose robes did they trade you,
For such a perfect life,
That's such a guarantee.

It leaves some certain sickness,
You'll never know,
Inside of me

That's all I have.

segunda-feira, julho 07, 2008

É o fim ?


"Fim do mundo do fim"

"Como os escribas continuarão, os poucos leitores que no mundo havia vão mudar de profissão e adotar também a de escriba. Cada vez mais os países serão compostos por escribas e por fábricas de papel e de tinta, os escribas de dia e as máquinas de noite para imprimir o trabalho dos escribas. Primeiro, as bibliotecas transbordarão para fora das casas; então, as prefeituras resolvem (já estamos vendo tudo) sacrificar as áreas de recreação infantil para ampliar as bibliotecas. Depois sucumbem os teatros, as maternidades, os matadouros, as cantinas, os hospitais. Os pobres aproveitam os livros com tijolos, grudam-nos com cimento e constroem paredes de livros e moram em casebres de livros. Então acontece que os livros transbordam das cidades e entram nos campos, vão esmagando os trigais e os campos de girassóis, o Ministério da Viação mal consegue que os caminhos fiquem desimpedidos entre duas paredes altíssimas de livros. Às vezes uma parede cede e há espantosas catástrofes automobilísticas. Os escribas trabalham sem trégua porque a humanidade respeita as vocações e os impressos já chegam à beira do mar. O presidente da república telefona para os presidentes das repúblicas e propõe inteligentemente jogar no mar o excedente de livros, o que se faz ao mesmo tempo em todas as costas do mundo. Assim os escribas siberianos vêem seus impressos jogados no oceano glacial e os escribas indonésios, etc. Isso permite aos escribas aumentarem sua produção, porque volta a haver espaço na terra para armazenar livros. Não pensam que o mar tem fundo, e que no fundo do mar começam a amontoar-se os impressos, primeiro em forma de pasta aglutinante, depois em forma de pasta consolidante, e finalmente como um chão resistente embora viscoso, que sobe diariamente alguns metros e acabará por chegar à superfície. Então, muitas águas invadem muitas terras, produz-se uma nova distribuição de continentes e oceanos, e presidentes de diversas repúblicas são substituídos por lagos e penínsulas, presidentes de outras repúblicas vêem abrir-se imensos territórios a suas ambições, etc. A água do mar, tão violentamente obrigada a espalhar-se, evapora-se mais do que antes, ou procura repouso misturando-se aos impressos para formar a pasta aglutinante, a tal ponto que um dia os capitães-de-longo-curso percebem que seus navios avançam lentamente, de trinta nós descem para vinte, para quinze, e os motores arquejam e as hélices se deformam. Afinal, todos os navios param em diferentes pontos dos mares, encalhados na pasta, e os escribas do mundo inteiro escrevem milhares de impressos explicando o fenômeno, cheios de uma grande alegria. Os presidentes e os capitães resolvem transformar os navios em ilhas e cassinos, o público vai a pé, por cima dos mares de papelão, para as ilhas e os cassinos onde orquestras de música típica argentina e de música local amenizam o ambiente refrigerado e se dança até altas horas da madrugada. Novos impressos se amontoam à beira do mar, mas é impossível metê-los na pasta, e assim crescem muralhas de impressos e nascem montanhas à beira dos antigos mares. Os escribas percebem que as fábricas de papel e de tinta vão falir e escrevem com uma letra cada vez menor, aproveitando até os cantos mais imperceptíveis de cada papel. Quando a tinta acaba, escrevem a lápis, etc.; ao acabar o papel, escrevem em tábuas e ladrilhos, etc. Começa a difundir-se o hábito de intercalar um texto em outro para aproveitar as entrelinhas, ou se apagam com lâminas de barbear as letras impressas, para utilizar novamente o papel. Os escribas trabalham devagar, mas são em tal quantidade que os impressos já estabelecem uma nítida separação entre as terras e os leitos dos antigos mares. Na terra vive precariamente a raça dos escribas, condenada a extinguir-se, e no mar estão as ilhas e os cassinos, isto é, os transatlânticos onde se refugiaram os presidentes das repúblicas, e onde se celebram grandes festas e se trocam mensagens de ilha a ilha, de presidente a presidente, e de capitão a capitão".


Cortázar (Histórias de Cronópios e de Famas)



terça-feira, julho 01, 2008

Pablo And Andrea ( yo la tengo)


show me where you keep all your secrets upstairs
night after night you sleep while they're setting off flares

someone came and took all the roses away
now you'll sit showing me tears if you want me to stay
cause down the street all the meters have run out of time
run out of time

I waited for you as the trees swayed out of time
in a crowded room I pick up your lonely stare
I'll cover for you like a slipcover covers a chair
but someone came and took all the roses away
it was only 5 minutes, it felt like it stretched into a day
someone came and took all the roses away

took all the roses away
took all the roses away

quarta-feira, maio 28, 2008

assim mesmo (mesmo assim)

Íris acorda, sente que uma noite de sono nunca foi suficiente. Não consegue levantar e desligar o relógio, buzina, buzina, buzina,estica o braço, aperta o botão. Ensaia levantar, mas deita. Na segunda tentativa coloca o pé no chão, mas chão não há. Tenta entender o que acontece, tudo continua em volta, as coisas em seus lugares, o relógio, os livros, as roupas, em cima da estante, as paredes em seus lugares, a porta aberta por um visitante que virá depois de amanhã ou que veio ontem.



Deitou, respirou profundamente, seguindo as técnicas de relaxamento, tentou puxar no fio da memória o que ocorrera até ali. Lembra-se que na manhã anterior tudo ia muito bem, a não ser pelo sono, até que ao sair do apartamento apertando o botão do elevador gelou de medo, e se o elevador que vinha do décimo primeiro andar bem na hora dela entrar nele rompesse o cabo e ela morresse de maneira estupefata. Decidiu depois de alguns segundos que o mais sensato seria descer pelas escadas.



Inverno na rua. Chuviscando folhas, gostoso caminhar, instântaneos rompem no vai e vem da rotina. Um menino que vende suco na calçada, a mulher que lucrou mais porque vendia café com leite quentinho. Inferno era o lixo e água empoçados na guia, fedia. Tomou o primeiro ônibus, sorte. O azar, as janelas estão fechadas, como as de seu quarto, o bafo, aquele cheiro de não sei quê amargo. Passou a catraca, olhou, buscou assento vago, tinha um ao lado duma mulher, nenhum na janela. Conformou-se em acostumar-se com o fedor, todo mundo se acostuma.



Cochilou, pensou na amiga, achava que a culpa era dela por não ver mais a amiga da amiga de quem Íris gostava. Sonhou também com o padrasto que a tentou surpreender no quarto, entrou sem bater. Reparou num velho japonês, de uma tranquilidade infinita que deveria ter a idade de seu pai se ele não houvesse morrido. Chegou no trabalho, cumprimentou seus colegas, trabalhou, almoçou, trabalhou. Fim de tarde, pensou em pegar um cineminha. O onibus naquele horário era uma lata de gente em conserva. O pior eram os caras que gostam de se esfregar na gente.
Volta pra casa depois de 103 minutos de Short cuts. Evasão, a sós, a não ser pelo rapaz que encosta em seu catovelo algumas vezes e duas pessoas de comentários ignóbeis. Bom poder assistir filme sem precisar comentar no final, sem ter necessidade de falar gostei ou não. Fechou os olhos, tenta rememorar algumas cenas, um diálogo, o silêncio. Na saída ouve sobre o filme algo de gente que se acha.




Volta pra casa cansada do ônibus, rotina, salário. Tem receio em pegar o elevador mas entra mesmo assim.
No apartamento, papai e mamãe estão no quarto. Lembro-me da bíblia na mesa, da luz que passava pela fresta da porta do quarto dos dois. Ouvi berros lá dentro. Hoje não tomo banho, durmo suja assim mesmo. Tranquei a porta. Deitei. Noite mal dormida, ruído e rumor, angustia. Tinha um louva deus gigante que entrava no quarto, pulava nas minhas costas, não consegui me mexer, real agonia, fecho bem os olhos e o bicho se transforma em um enorme par de asas, dói, choro, por que não posso voar?




Perdeu a referência
Íris acorda, sente que uma noite de sono nunca foi suficiente. Não consegue levantar e desligar o relógio, buzina, buzina, buzina,estica o braço, aperta o botão. Ensaia levantar, mas deita. Na segunda tentativa coloca o pé no chão, mas chão não há. Tenta entender o que acontece, tudo continua em volta, as coisas em seus lugares, o relógio, os livros, as roupas, em cima da estante, as paredes em seus lugares, a porta aberta por um visitante que virá depois de amanhã ou que veio ontem.


Deitou, respirou profundamente, seguindo as técnicas de relaxamento. Lembra-se que na manhã anterior tudo ia muito bem, a não ser pelo sono, até que ao sair do apartamento, apertando o botão do elevador gelou de medo, e se o elevador que vinha do décimo primeiro andar bem na hora dela entrar nele rompesse o cabo e ela morresse de maneira estupefata. Decidiu depois de alguns segundos que o mais sensato seria descer pelas escadas.


Inverno na rua. Chuviscando folhas, instântaneos rompem no vai e vem da rotina. Um menino que vende suco na calçada, a mulher que lucrou mais porque vendia café com leite quentinho. Inferno era o lixo e água empoçados na guia, fedia. Tomou o primeiro ônibus, sorte. O azar, as janelas estão fechadas, como as de seu quarto, o bafo, aquele cheiro de não sei quê amargo. Passou a catraca, olhou, buscou acento vago, tinha um ao lado duma mulher, nenhum na janela. Conformou-se em acostumar-se com o fedor, todo mundo se acostuma.


Cochilou, pensou na amiga. Sonhou também com o padrasto que a tentou surpreender no quarto, entrou sem bater. Reparou num velho japonês, de uma tranquilidade infinita que deveria ter a idade de seu pai se ele não houvesse morrido. Chegou no trabalho, cumprimentou seus colegas, trabalhou, almoçou, trabalhou. Fim de tarde, pensou em pegar um cineminha. O onibus naquele horário era uma lata de gente em conserva. O pior eram os caras que gostam de se esfregar na gente.
Volta pra casa depois de 103 minutos de Short cuts. Evasão, a sós, embora haja um rapaz que encosta em seu catovelo algumas vezes e comentários ignóbeis. Bom poder assistir filme sem precisar comentar no final, sem ter necessidade de falar gostei ou não. Fechou os olhos, ela gosta de filmes que não a faziam comprar algo.

Volta pra casa cansada do ônibus, rotina, salário. Tem receio em pegar o elevador mas entra mesmo assim. No apartamento, papai e mamãe estão no quarto. Lembro-me da bíblia na mesa, da luz que passava pela fresta da porta do quarto dos dois. Ouvi berros lá dentro. Hoje não tomo banho, durmo suja assim mesmo. Tranquei a porta. Deitei. Noite mal dormida, ruído e rumor, angustia. Tinha um louva deus gigante que entrava no quarto, pulava nas minhas costas, não consegui me mexer, real agonia, fecho bem os olhos e o bicho se transforma em um enorme par de asas, dói, choro, por que não posso voar?

Perdeu a referência

Andorinha

"Andorinha lá fora está dizendo:
— "Passei o dia à toa, à toa!"


Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa . . ."

BANDEIRA

segunda-feira, maio 12, 2008

Para preencher as lacunas


Imaginar uma mulher traída. Esta seria a primeira tarefa, depois, viriam os detalhes, uma mulher que apostou tudo, sonhos, viagens, uma nova vida, mas havia sido traída. De homens patéticos se faz história. Mariana tinha quarenta anos quando conheceu João. Ele sonhava com uma sociedade mais justa, ela queria ser feliz ao lado dele numa sociedade mais justa. Ele se encantou com outras, outras pernas, e o mundo não era mais necessariamente um lugar para os justos.

"las cosas la están mirando

y ella no puede mirarlas"

quinta-feira, maio 08, 2008

alguma coisa

desmaiada em pensamentos
tromba com pedras
as pedras sabem esperar

desmaiada em pensamentos
encontra poesia nas coisas
objetos transformam-se em algo não captado antes
como as pedras
pedras que não podem preceder pressupostos

quarta-feira, maio 07, 2008

devaneio


Desmaiada em pensamentos, vozes flutuam ao seu redor, a luz dá prazer quente, presente, lembra-se, conserva o tempo das desavenças com o irmão do meio, querelas pueris, o balanço é sempre positivo mas há algo que se perdeu no pretérito, sonhos de ser ou sentir, fantásticas viagens, o impossível na palma da mão. Hoje, sente-se fora do lugar, em busca de tempo, dinheiro e matéria pra construir. Da natureza interna ficou o nada.

segunda-feira, maio 05, 2008

Yo la tengo (today is the day)

i followed you ..foolishly
you were at a smoky bar, you were out til three
sat alone inside my car, it was nearly four
we were gonna wait for you all night
so i locked the door

i was gonna spend the night, coulda been okay
we were gonna talk all night, till i went away
remember how you used to say, can't stay up late
a minute later we're older now, i can't stay awake
i'm driving by your parent's farm, in the Chevrolet
i remember that rusty car, like it was yesterday

saw my brother driving by, the other day
i wished that i'd go out to him, but he drove away
saw my sister standing there, standing in rain
then i thought about nothing, that it feels the same

another day, come and gone
don't think i can ever sing that song
little secrets we bring along
i'm taking my time, trailing behind, i thought of you
today is the day i think of you

domingo, maio 04, 2008

Se não houvesse fim (Zig-zag)


"E quando a mentira começar a dar-nos prazer, falemos a verdade para lhe mentirmos."


Queria lhe mandar uma mensagem no celular: atrás de cada gesto sempre se esconde uma paixão; queria voltar à sua cama nesses dias frios, sentir o seu cheiro e sexo, mas não havia sequer verbalizado seu querer, conjecturas, via nela uma mulher que mexia com seu todo e que o tratava ora como um gato, ora um cachorro.

Queria ler o que ela estivesse lendo junto na cama, um conto ou um poema, discutir somente o silêncio enquanto sentia sua cintura com uma de suas mãos enquanto a outra sentisse seu pescoço, ombros, costas, enquanto ela se sentisse desejada.

Queria falar-lhe o quanto seus amigos eram dispensáveis, o quanto ele era egoísta, o quanto ela estava exuberante a última vez que se encontraram naquela festa estúpida - que poderiam ter evitado, a sós, ouvindo as histórias dela, da infância, da avó, dele, dos cavalos, do sítio, bebendo suas histórias.

Queria beijar sua boca, sua boca sempre mais vermelha, mais redonda e sempre entreaberta pedindo pra ser mordida. Mas suas palavras, como seus gestos, eram sempre equivocados. Era um patético e sabia que seu jeito a ameaçava.

No fim, um dia, ela lhe disse sobre a importância das pessoas estarem bem sozinhas, disse que diferenças de idade e de opinião não contribuem para um bom relacionamento, disse também não estar pronta pra uma relação mais íntima.