sábado, abril 26, 2008

Iluminuras de São Paulo


No negro chão sujo, um resto de homem se contorce. Está mijado, com frio, encolhido e geme. O resto de homem no negro chão sujo é negro. A noite é negra como a garrafa ao lado daquele farrapo. No terminal de ônibus, é o único que está parado, deitado. Transeuntes vêm, olham, passam, alguns dão risada, outros olham com repugnância. Uma mulher recolhe o lixo com pá e vassoura em punho. Indiferente a cena, aproxima-se daquele maltrapilho e quase toca seu nariz, com a vassoura, para que não haja mais sujeira no chão. Agora só há um esfarrapado no chão que continua negro mas agora está limpo. Escolho palavras, não para julgar, mas para absorver essa imagem que agora me pertence.

quarta-feira, abril 23, 2008

Máximas ou axiomas?


"O leitor é um texto" BARTHES


Na verdade, não há leitor nem texto o que existe são "comunidades interpretativas." O NOME DO DITO CUJO QUE CHEGOU A ESSA CONCLUSÃO ESQUECI


terça-feira, abril 22, 2008

I'm sorry that I love you

CARACOLA

a NATALITA JIMÉNEZ

"Me han traído una caracola.

Dentro le canta
un mar de mapa.
Mi corazón
sellena de agua
con pececillos
de sombra y plata.

Me han traído una caracola".

GARCÍA LORCA

sexta-feira, abril 18, 2008

Isto não é uma poesia


PASSEIO NO METRÔ


nos olhos da criança

encerra-se emoção inesgotável


a garota cor de rosa no metrô

sofre uma desvantagem

na linguagem no discurso na cognição


mas tem muitos privilégios

não sofre do imediatismo das coisas prontas

nem da bestialidade coletiva


necessidade de se chegar ao fim das histórias

fora do mundo das mercadorias e dos espectadores, passeia

e aproveita a viagem


Tem doze ou vinte um

não se sabe


"Solo el misterio nos hace vivir. Solo el misterio" LORCA

quarta-feira, abril 16, 2008

Dengue

Apologias midiáticas

No Rio, em plena epidemia de dengue, autoridade da PM denonmina a própria PM como inseticida social. Se fosse um poeta, tudo bem, há uma certa poesia na combinação insólita. Mas é um funcionário público ... Mas o estado... Mas a democracia...

segunda-feira, abril 14, 2008

Sobre Baudelaire, Spleen, Benjamin, Paris, Debord


"Farejando por todos os cantos o caso das rimas"

..."E às vezes topando com versos há muito sonhados"

Assim nem tudo era mercadoria, hein Debord?
Não era... depois dizem que o Nietzsche é quem pega pesado.

quarta-feira, abril 09, 2008

Pra quem gosta de provérbios

A Lua anda devagar mas atravessa o mundo.
(provérbio africano)

quarta-feira, abril 02, 2008

Casamineto De Negros (Violeta Parra y Milton Nascimento)


"Se ha formado un casamiento
Todo cubierto de negros.
Negros novios y padrinos,
negros cuñados y suegros.

Y el cura que los casó
era de los mismos negros.
Cuando empezaron la fiesta
pusieron un mantel negro.
Luego llegaron al postre,
se servieron higos secos,
y se fueron a acostar
debajo de un cielo negro.

Y ya están las dos cabezas
de la negra con el negro.

Amanecieron con frío,
tuvieron que prender fuego.
Carbón trajo la negrita,
carbón que también es negro.
Algo le duele a la negra.
Vino el médico del pueblo,
recetó emplasto de barro
pero del barro más negro,
que le dieron a la negra
zumo de maqui del cerro.

Y ya murió la negrita,
¡que pena para el pobre negro!
Y la fueron a enterrar
en cajón pintado de negro.

No prendieron ni una vela,
¡Ay! que velorio más negro.
Y ya partió la negrita
levitando para el cielo.
Era un día muy nublado,
todo se veía negro.

Le abrió la puerta San Pedro
que era de los mismos negros".

terça-feira, abril 01, 2008

A Sophia fez aniversário

A Sophia fez aniversário. Vovó, Dino, Verena e Dedéia estavam lá, além do grupo infantil de capoeira, além dos culpados por sua existência, a saber, Biathan e Mariokum. Comemos, bebemos e nadamos. Depois morremos afogados para nascermos mais uma vez. A Sophia estava muito contente com a presença de todos e, principalmente, por causa de sua nova piscina, muito entusiasmada. Faz três anos que ela está no meio de nós. Obrigado Sophia, o limite do mundo é sua imaginação. Ou onde mamãe e papai lhe levarem.

sábado, março 29, 2008

sexta-feira, março 28, 2008

O que fica da cinza das horas?

Fica as cinzas
Fica as horas
Fica o outro
Fica os outros

Fica o bobo
Fica a máscara
Fica o outro
Fica os outros

quinta-feira, março 27, 2008

O Silêncio



"Na sombra cúmplice do quarto,

Ao contato das minhas mãos lentas

A substância da tua carne

Era a mesma que a do silêncio

Do silêncio musical, cheio

De sentido místico e grave

Ferindo a alma de um enleio

Mortalmente agudo e suave

Ah, tão suave e tão agudo!

Parecia que a morte vinha...

Era o silêncio que diz tudo

O que a intuição mal adivinha.

É o silêncio da tua carne.

Da tua carne de âmbar nua,

Quase a espiritualizar-se

Na aspiração de mais ternura"

BANDEIRA

quarta-feira, março 26, 2008

O resto é silêncio

"Quer pintar? Então comece cortando a língua, pois a partir de agora você só deve se exprimir com seus pincéis"


MATISSE

segunda-feira, março 24, 2008

Quase Crônicas

As crianças da fronteira entre Paraguai e Brasil vem, falando guarani, aprender o português por um prato de feijão.

Mas e o Haiti? Ah, o Haiti... Onde fica mesmo? Não importa. Todo o mundo é mais importante que o Haiti. Mas não é o Brasil que comanda o programa de pacificação lá? Será? Como? Como consegue tomar conta de outro país? E o que acontece com o Haiti? Tem petróleo lá? Ou o conflito é étnico? Tem muito preto no Haiti? Ah... O Haiti, eu sei que se fala francês lá. Chique né? Onde fica o Haiti mesmo?

A lua
A contingência do ser humano traduz-se em lirismo. A luz na mão de Fellini clareia a infância que, por ser tão íntima, é a puerilidade de todos. Um poeta em seus filmes é a metáfora de criança. Fellini, um narrador de sonhos que nunca se faz notar, ao mesmo tempo tão singular e melancólico. Quando conta o sonho, nos tornamos parte dele. O expectador nunca saiu ileso de seus filmes. Ah! E a lua estava mais bela que nunca.

quinta-feira, março 20, 2008

Pedestre Desvio (iluminuras)



"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras".

NIETZSCHE




Câncer tem cinco letras. Ele observa uma menina de passos indecisos. Toda torta. Tudo parece indeciso nela. Linda e torta. Mas sofrer de câncer é muito pior.


Nos bares, a maioria é feita de homens, tomam sua cervejinha, evitando o tumulto das seis na cidade mais inchada da América Latina... Aliás, com o nome do continente dá pra se escrever cancer (sem acento) - é só dobrar o cê. Sobra um monte de letras. Dá até pra escrever Amelia, Anita, mas só se pegar o ene emprestado de câncer. Será que a moça torta, indecisa e sorridente chama-se Anita.

Aninha, tão linda e sem jeito passa pelas calçadas, driblando sem querer os pedestres. Talvez ela quisesse mesmo era trombar. Sentir-se uma igual, mas não especial. Às vezes alguém esbarra, mas fica todo desajeitado, embaraçado pede desculpas. Mas se trombam a culpa é sua.

Ele continua atento. Acha que ela não queria ter nascido daquele jeito. Acha que tão difícil quanto o câncer é ser diferente. Continua a espreitar Anita que some num desvio da avenida principal.


quarta-feira, março 19, 2008

Imagem é tudo

"China's handling of the Tibet issue is being watched closely by world leaders in the run-up to the Beijing Olympics.

Officials said on Wednesday that the Olympic torch - which will be carried across China ahead of the Games - will still go through Tibet despite the current troubles".

An excerpt from today's article Protesters 'surrender in Tibet' on http://news.bbc.co.uk/2/hi/asia-pacific/7304144.stm

11/12

Absorver imagens. Transformar o mundo em metáfora e transcrever a consciência e o subconsciente das almas. As peculiaridades do ser humano podem ser problematizadas e muitas vezes questionadas por meio único e exclusivo da linguagem. Talvez seja esta a razão da literatura. Talvez também seja a melhor maneira de conhecermos a nós mesmos.

terça-feira, março 18, 2008

Desvio


O mesmo, o outro
penso a limpo

e trato tudo como se fosse acidente

sempre esperando o pior


inferno e caos
porque amor e liberdade nunca vencem


só espero achar um lugar melhor
ou um jeito melhor de desistir

preso em minha própria teia

você sempre me avisava

mas eu não sei ouvir


A vida, uma sucessão de equívocos

a poesia, uma maneira de problematizá-los


De pneu, faço um balanço
meu menino brinca, eu estendo as roupas

A praça amanhece

segunda-feira, março 17, 2008

desabafo


A vida, uma sucessão de equívocos
A literatura, uma maneira de problematizá-los
De pneu, faço um balanço
Meu menino brinca
Eu estendo roupas
A desgraça amanhece

sábado, março 01, 2008

Earthly delights


Vazio, desconectado, a figura que se vê é uma sombra funda. Tudo parece revolver a poeira. O passado uma poeira subsahariana. A mulher se arrasta, um homem a acompanha. A vida naquele lugar é feita de sacrifícios.